terça-feira, 30 de outubro de 2007

Os vários matizes do verde

A edição de 25 de Outubro da VISÃO é verde. Quer isto dizer: contém abundante informação e opinião destinada a sensibilizar os leitores para a necessidade de mudar comportamentos de modo a poupar recursos – água, energia, etc. – e a reduzir o impacto negativo da actividade humana no planeta. É simpático e oportuno promover este tipo de iniciativas, já que o aquecimento global e o esgotamento das fontes tradicionais de energia são realidades comprovadas. Por outro lado, constitui uma boa receita de marketing apelar às consciências pesadas que todos temos e, em simultâneo, propor medidas que conduzirão a poupanças interessantes. Pela minha parte, fico, a um tempo, preocupado com a perspectiva do aumento da temperatura, eu que tão mal suporto o calor, e contente comigo próprio por separar os resíduos domésticos e ter quase só lâmpadas economizadoras lá em casa.

Entretanto, já me parece francamente ridículo um dossier (recuso-me a escrever "dossiê") sobre a casa ideal, perfeita de tão verde. Divisão a divisão, são apresentadas soluções que não merecem contestação, como a utilização das inevitáveis lâmpadas economizadoras ou a moderação na utilização da água e dos equipamentos de climatização. A coisa começa a descambar quando são aconselhadas pérolas como a mala Dunhill dotada de painéis solares ou uma pasta de dentes com sabor a menta da WalaVita à venda na Miosótis por €4,99. Não faltam, na casa perfeita da VISÃO, os alimentos biológicos ou um automóvel híbrido, na garagem.

Esta insistência no ecochic, neste como noutros contextos, é reveladora de uma grande, insuportável futilidade – e não de uma legítima preocupação com o ambiente, latu sensu. “Ora aqui está mais uma oportunidade para lançar modas”, pensou alguém, e a VISÃO, como tantas outras publicações, foi atrás, aproveitando para vender publicidade.

A promoção da mudança de comportamentos junto do cidadão comum faz-se com dois ou três ingredientes chave:

O problema que dá origem à necessidade de mudança deve ser evidenciado de forma clara acessível e, nesse aspecto, é facto que existe já uma razoável consciência dos perigos decorrentes, a curto prazo, das agressões ao ambiente. Só que estamos a falar de grupos sociais muito circunscritos, mesmo dentro do Ocidente. Grande parte destas preocupações ainda é um luxo, na nossa sociedade, e um quase um insulto, para as populações dos países emergentes, a braços com a sobrevivência mais crua.

Por outro lado, a relação esforço-benefício deve ser claramente favorável: muito bem, eu abdico de utilizar tanto o meu carro e disponho-me a utilizar o transporte público. Só que eu não vivo em nenhuma das grandes cidades portuguesas, pelo que não tenho metro nem redes de autocarros urbanos ao meu dispor, e os comboios são peças de museu. Talvez se se investisse tanto na província como nos grandes centros eu tivesse outras alternativas que não uns autocarros comprados em ocasião, após dezenas de anos de serviço noutros países, que funcionam em horários impraticáveis e que demoram o triplo do tempo que eu levo de automóvel…

A responsabilidade (e, concomitantemente, o poder para fazer alguma coisa) deve ser atribuída com honestidade e coerência: não me venham dizer que, na lista dos culpados pelo aquecimento global ou pela escassez de água potável, o meu nome surge em lugar de destaque, ou que o meu contributo individual é decisivo para travar a degradação do planeta! Acredito que os esforços combinados de todos os ocidentais podem fazer alguma diferença mas, ainda assim, esta será mínima face ao impacto negativo das indústrias americanas ou chinesas, por exemplo.

Percebo que seja mais fácil tirar-me o sono, a mim e a outros cidadãos anónimos bem intencionados, mas o facto é que não abdico da minha insignificância nem assumo um ónus que me ultrapassa. Senhores ambientalistas: esforcem-se mais um pouco e pressionem os governos e grandes corporações mundiais. Eles é que fazem a diferença. (E abstenham-se do folclore de andar a destruir colheitas, por exemplo. Façam lobby criativo mas sério). Senhores políticos: sejam consequentes. Quantos de vós utilizam os transportes públicos no dia-a-dia (e o avião não conta)? Senhores industriais: quando vai o mercado ter acesso aos resultados da investigação em matéria de novos combustíveis?

Finalmente, o estímulo para a mudança não pode ser feito pela negativa, através da penalização ou da repressão. Se se pretende que as pessoas utilizem automóveis híbridos, a tributação em sede de Imposto Automóvel não pode ser a mesma de um vulgar veículo. Da mesma forma, não faz sentido onerar o preço das lâmpadas convencionais em vez de promover o baixo preço das economizadoras, tal como é descabido anunciar incentivos fiscais para a instalação de painéis solares em residências e, depois, fazer o cidadão dar voltas e mais voltas nos meandros da burocracia até se cansar. (Já agora, não me cansem mais com a moda dos alimentos biológicos: trata-se de marketing puro já que, além de serem caríssimos e difíceis de encontrar, duvido que sejam uma alternativa realista para alimentar o mundo!)

De tão pouco sérias, iniciativas como a da VISÃO acabam por ser contraproducentes, contribuindo apenas para o descrédito das causas que se propõem promover. Falemos de ambiente, mas falemos a sério, até porque o verde tem cambiantes muito diversos consoante estamos numa redacção da capital, na província portuguesa ou numa cidade-dormitório do Terceiro Mundo.

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